Fazendo Pão e Gerindo Equipes

Pães assados hoje, 2026-06-22.
Um dos meus passatempos favoritos é a culinária. Gosto de testar processos, aprender técnicas e, mesmo quando a rotina não permite ir para a cozinha, consumo literatura sobre o tema. Recentemente, refletindo sobre essa dinâmica, percebi o quanto a gestão de tecnologia e a liderança executiva se assemelham à arte de fazer pão.
Hoje, por exemplo, o desafio foi um pão de fermentação natural, o famoso levain. O processo final parece simples: misturar o fermento, a farinha, a água e o sal nas proporções adequadas, modelar a massa e assar. No entanto, o verdadeiro segredo está no preparo e na sensibilidade de onde estamos: “criar” e alimentar o levain, encontrar a farinha ideal — seja enfrentando o frio de Curitiba ou o calor de Guadalajara —, entender como a massa se comporta em diferentes temperaturas, mapear os tempos de fermentação e dominar as peculiaridades de cada forno.
Na gestão de tecnologia, a dinâmica é a mesma. Dividimo-nos constantemente entre atividades de preparo e atividades de execução.
O preparo no ambiente corporativo consiste em estruturar a base: formar os times, treiná-los, definir processos, estabelecer padrões arquiteturais, escolher ferramentas, alinhar indicadores e acordar SLAs. A execução é a operação diária — o ato de monitorar, acompanhar, desenvolver pessoas e entregar valor consistentemente.
Assim como na panificação, o líder precisa decodificar o ambiente. Qual é o contexto atual? Quais são as prioridades estratégicas? Qual é o objetivo de negócio que a tecnologia está suportando?
Não precisamos dominar as fórmulas químicas exatas da fermentação, assim como não precisamos preencher cada linha das equações de risco do negócio. Mas temos a obrigação de entender como combinar as necessidades da empresa, os projetos estratégicos e as ferramentas disponíveis para gerar o resultado desejado. Conhecer as áreas correlatas e seus processos, ao menos ao nível macro, é o que nos permite adaptar a “receita” à realidade do mercado.
Na gestão, nós, os líderes, somos o levain. Somos o agente catalisador. O fermento natural tem o poder de aumentar o rendimento, criar a liga interna e transformar ingredientes isolados em um produto final infinitamente superior à mera soma das partes. Um gestor carrega consigo essa mesma força: ele pode multiplicar a produtividade e o engajamento de uma equipe, ou pode reduzi-los a praticamente zero.
Cuidar da ordem dos fatores é crítico. Aplicar as ferramentas erradas no momento errado é o equivalente a misturar os ingredientes fora de ordem, arruinando a estrutura e o rendimento da massa.
Para o ecossistema funcionar com autonomia, os processos — assim como as receitas — devem ser claros, lógicos e bem documentados. Uma operação madura deve ser capaz de se replicar com precisão mesmo sem a presença física do seu criador.
Balanças, termômetros e medidores de quantidade são para o padeiro o que os KPIs e os dashboards são para o executivo. Eles guiam o caminho, indicam se a direção está correta e apontam desvios de rota. Contudo, isolados, dados e medidores não geram resultado algum. Eles são ferramentas de diagnóstico, não a execução em si.
Um pão excepcional, assim como uma equipe de alta performance, exige dedicação contínua. Exige combinar os talentos e as ferramentas na ordem certa, na quantidade correta e, acima de tudo, com o toque humano necessário para identificar o que os números não capturam.
O monitoramento constante é o que calibra a tomada de decisão: o momento exato em que a massa atingiu o ponto ideal de crescimento ou os minutos a mais que o pão deve passar no forno. Essa sensibilidade técnica e cultural nasce da experiência.
No final, tudo é amparado por um procedimento, uma governança, uma receita. Mas o ingrediente que diferencia o ordinário do extraordinário é o cuidado.
O zelo do padeiro com a evolução da massa deve ser o mesmo cuidado do gestor com o desenvolvimento das pessoas. A qualidade do tempo, da empatia e do investimento direcionados às equipes dita, invariavelmente, a qualidade e a solidez do retorno que elas propiciarão ao negócio.
Cuide do seu pão. E cuide ainda melhor das pessoas que estão sob a sua responsabilidade. Os resultados vão ser melhores a cada dia.
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