A Geometria do Sentar: O Zazen e a Ilusão da Dualidade
A prática do Zazen (o sentar-se em meditação) frequentemente nos coloca diante de um paradoxo fundamental: a percepção de que somos, simultaneamente, dois e um. E de que esse “dois” e “um” operam em uma dinâmica onde são e não são o mesmo.
Para compreender essa natureza não-dual, a imagem de uma moeda é o melhor exemplo.
- Uma moeda é, sem sombra de dúvidas, uma unidade.
- Ao mesmo tempo, ela manifesta duas faces distintas e impossíveis de serem confundidas entre si.
Se tentarmos separar as faces cortando a moeda ao meio, não obteremos duas faces isoladas; criaremos apenas duas moedas mais finas, cada uma com seus próprios dois lados. Da mesma forma, no Zazen, a distinção entre o observador e o observado, entre o “eu” que senta e a “realidade” que se apresenta, revela-se uma ilusão de ótica da mente analítica. As duas faces coexistem para a moeda existir.
O Dois e o Um no Zen
No Zen, essa relação é descrita através da quebra do pensamento binário:
- Não-Dois (Dualidade Relativa): Reconhece que o corpo e a mente, o eu e o mundo, parecem separados na experiência cotidiana. Há uma forma, uma individualidade, um lado da moeda.
- Não-Um (Unidade Absoluta): Reconhece que nada existe isoladamente. Tudo existe ao mesmo tempo. Porém, fundir tudo em uma massa homogênea (“tudo é uma coisa só”) anularia a beleza da manifestação individual.
O símbolo do Yin e Yang (☯) ilustra essa dança: o ápice do Yin carrega a semente do Yang, e vice-versa. Eles não se anulam; eles se originam mutuamente.
“A prática não é para alcançar a unidade, mas para atualizar a realidade de que a separação nunca ocorreu.”
Ou, nas palavras de Shunryu Suzuki (autor de Mente Zen, Mente de Principiante):
“A iluminação não é um estado a ser alcançado; é a eliminação da ilusão de que estamos separados do todo.”
Reflexão para o Cotidiano
Sentar em Zazen não é buscar um estado de transe onde o mundo desaparece, mas sim repousar no limite exato onde as duas faces da moeda se encontram: o corte lateral, a borda que une e delimita ambos os lados. É a experiência de ser o rio e a margem ao mesmo tempo.