Apressa-te devagar
Estava lendo um texto de filosofia, quando encontrei a palavra hustle. Sabem aquelas palavras que não lembramos o significado, mas que temos na ponta da língua? Pois é: essa foi uma delas para mim.
Buscando mais informações e pesquisando, tive a ideia desse artigo onde questiono uma coisa muito comum hoje em dia: a velocidade e o imediatismo de tudo.
Vivemos em uma era que idolatra a velocidade. Empresas competem para lançar produtos antes dos concorrentes, profissionais se orgulham de agendas lotadas (a minha é um caos, alterada a todo instante de acordo com prioridades dos meus superiores ou os eventos inesperados que acontecem em um ambiente produtivo complexo) e líderes são cobrados por resultados imediatos. Mas será que correr sempre é a melhor estratégia? Em muitos casos, a pressa não acelera nada, só aumenta os riscos.
A história nos oferece lições valiosas, tanto reais quanto em forma de fábulas. Quando Octaviano, ainda adolescente, herdou o legado de Júlio César, tudo indicava que sua ascensão seria rápida e turbulenta. Ele tinha ambição, tinha poder e tinha pressa para ser o governante supremo. No entanto, não foi a velocidade que o transformou em Augusto, o imperador que consolidou Roma. Foi a paciência estratégica. Durante anos, dividiu poder, construiu alianças, fortaleceu sua base. Seu lema era festina lente: apressa-te devagar. Ele compreendia que liderança não é corrida de cem metros; mas sim uma maratona que exige ritmo, preparo, e resistência.
A fábula da lebre e da tartaruga nos lembra que consistência supera explosões de velocidade. A tartaruga não venceu porque era lenta, mas porque nunca parou. Ela avançou com propósito, enquanto a lebre, confiante demais, desperdiçou tempo. É aqui que entra o verdadeiro sentido de hustle: não é correria desenfreada, mas empenho disciplinado, trabalho intenso e contínuo, com foco na qualidade.
A mesma lógica se aplica à guerra. O general George Thomas foi criticado por sua lentidão durante a Guerra Civil Americana. Ulysses Grant chegou a cogitar removê-lo do comando por não atacar rápido o suficiente. Mas Thomas não estava parado; estava se preparando. Ele sabia que uma ofensiva mal planejada seria desastrosa. Quando finalmente atacou, fez isso com força esmagadora, garantindo uma das principais vitórias do conflito. Sua lentidão aparente era, na verdade, prudência estratégica.
Esses exemplos demonstram algo essencial: resultados sólidos exigem preparo. Em liderança, negócios ou vida pessoal, agir sem pensar é desperdiçar energia. Planejar antes de executar não é sinal de fraqueza, mas de inteligência, pois cada passo bem calculado constrói a base que sustenta o próximo.
Ir devagar não significa parar; significa avançar com intenção. A verdadeira eficiência nasce da consistência. Quando cada movimento é firme, o progresso se torna inevitável. Como dizia o poeta Juan Ramón Jiménez, “devagar, você faz tudo corretamente”. Essa é, novamente e para não esquecer, a essência do que chamamos de hustle: esforço disciplinado, sustentado pelo cuidado e pela intenção de fazer bem feito.